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Ontem dezenas de milhares de pessoas receberam a dádiva de ver e ouvir Gilberto Gil ao vivo. Certamente é uma situação de que todas as gerações futuras, que não terão essa chance, verão imagens e nos dirão de nossa sorte e privilégio. Se chegarmos aos 80 anos com apenas um pouco da lucidez e da vivacidade dele, será uma de nossas histórias preferidas de contar aos mais jovens: essa de termos visto Gilberto Gil. E eles nos olharão com seus olhinhos incrédulos e invejosos de nossa fortuna.

Gil estava lá, íntegro. A voz, evidentemente, com menos potência e definição nos graves, mas mantendo o brilho nos seus agudos mais característicos, nos disse sobre como o talento, o conhecimento e o domínio da música e do corpo suplantam as limitações fisiológicas da idade e garantem um espetáculo irretocável. O instrumentista, violonista não menor do que os maiores do Brasil, sobreviverá nele, igualmente íntegro e altivo, enquanto sangue circular em suas veias. Ele tocou por três horas seguidas, sem intervalo. O show-man é a evidência de um homem tão tão tão tanto tanta coisa que parece nem existir. Uma pessoa de 82 anos fez um show de 3 horas, tocando e cantando em performance elevadíssima, sendo o foco principal do espetáculo, para 40 mil pessoas. Será que temos a real noção do que isso significa?

No show, Gil é como na vida. Bom em tudo o que faz. Trouxe alguns dos melhores rocks brasis de todos os tempos, seus extras, punk da periferia; trouxe o reggae Brasil, gênero musical de que é a pedra fundamental, referência indubitável; trouxe seus sambas imortais e imortalizados também pelo outro Gilberto brasileiro do violão; trouxe o forró e o baião, ritmos em que ele transita como fosse o mais enraizado bastião dessa tradição porque, de fato, é. Trouxe suas canções magníficas de amor a tudo o que vive. Trouxe seu pensamento, suas filosofia e teologia libertárias e profundamente humanas e festivas. Trouxe sua visão política totalmente coerente com o que ele faz e é.

Eu me despedi de sua voz em cada verso e chorei.

Gilberto Gil é nossa riqueza, nossa fortuna. Eu sabia de cor, de coração e alma, todas as músicas do show. Suas canções me ensinam a viver desde a primeira vez que o ouvi. Ele está em mim de um modo que não explico e nem o pretendo porque é preciso deixar o mistério existir em nós. Ele me ensinou isso. Ele me ensinou também que tudo vai dar pé, que a felicidade é simples, é um tobogã onde a gente escorregue. Ele me comprovou que o mundo sorri mais do que chora, senão não haveria infinitas estrelas no céu. Ele me convenceu que posso ser ateia e acreditar que a fé não costuma faiá, e que posso falar com Deus, se eu quiser. Ele estabeleceu que o Rio de Janeiro continua lindo e a gente acaba atribuindo ao Rio essa eterna beleza, que não deixa de ser em si, mas talvez não fosse tanto sem o Gil. Enfim, são dele muitos pensamentos e sentimentos que nos fundam como pessoas, povos, cultura e nação. O Brasil se vê melhor pelas lentes de Gil.

E ontem esse ser iluminado estava ali, assim, num altar, onde a gente celebrou o que todos nós, e Deus, consentimos: Gil é puro amor.

Como é bom compartilhar o mesmo espaço/tempo dele.

Obrigada por tanto, @gilbertogil. Não há palavras que me digam melhor do que as suas.

Jun 8, 2025
at
10:52 PM
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