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Esses dois fragmentos de imagem (o primeiro, de The Birth of a Nation; o segundo, de The Searchers) dão muito pano pra manga, dão ensejo pra um texto maior.

No 1°, Lilian Gish olha o extra-campo e se aterroriza. Atrás dela, uma mulher branca, pintada em blackface, faz “cara de má” e parece aproximar-se como ameaça. Para além do efeito (social, digamos) extremamente negativo de práticas como o blackface, a gente pode conjeturar uma outra leitura que foge das intenções estéticas do diretor (D. W. Griffith) e que revela, nas contradições internas da própria obra, uma outra verdade possível. Gish não tem visão da moça às suas costas, e o que a aterroriza é a projeção (idealizada) que ela faz das pessoas negras, sombras de sua má consciência. Como diz o Baldwin, o que aterroriza e ameaça os EUA é a noção de sua própria identidade:

“Eu havia sido inventado por pessoas brancas”, diz o Baldwin em Uma conversa com professores, “e eu sabia o bastante da vida nessa época para entender que o que você inventa, o que você projeta, é você! Então, o ponto a que chegamos agora é o de um país inteiro acreditando que sou um “negrinho” e eu não, e a rixa é essa! Porque, se eu não sou o que me disseram que sou, significa que tampouco você é aquilo que pensava ser. E a crise é essa.”

No 2° (The Searchers), nesse mesmo sentido, é interessante como se constrói uma equivalência entre Ethan (John Wayne) e o Scar, o antagonista “índio” que é, na verdade, um homem branco fantasiado de indígena Comanche. (A palavra “índio”, sabemos, resulta de um equívoco histórico do dito Ocidente, de quando os colonos chegaram ao que hoje se chama América e pensavam ser a Índia. Portanto, tal como dizia o Baldwin acima: “se eu não sou o que me disseram que sou, significa que tampouco você é aquilo que pensava ser”). Diríamos, portanto, que Scar é um “índio”, não um indígena, ou seja, não um Comanche correspondente à realidade concreta dos povos nativos: ele é uma projeção equívoca de Ethan, da ideia que os brancos norte-americanos têm dos indígenas. Este enxerga Scar como selvagem e, no decorrer do filme, há vários exemplos que espelham Ethan/Scar, no sentido de “You think I’m a savage; you are a savage”.

(Escrevi um pouco sobre isso há um tempo: substack.com/@alhures/n…

Jun 3
at
1:19 PM
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