Make money doing the work you believe in

Link Museu

A produção de Link Museu parte de uma permanência. A pichação, iniciada em 2001 nos muros da zona leste de São Paulo, continua sendo o fundamento de sua pesquisa artística mesmo após sua inserção no circuito institucional das artes visuais. A pintura amplia seu campo de atuação, incorpora novos materiais e procedimentos, mas preserva a experiência construída nas ruas e a relação cotidiana com a cidade.

Sua trajetória foi construída fora dos espaços formais de formação artística. A convivência com outros pixadores, o grafite, os saraus e as iniciativas culturais da periferia constituíram seu primeiro repertório. A descoberta da pintura também nasce desse percurso. O interesse pela cor antecede o contato com a história da arte e se desenvolve a partir da prática cotidiana com tintas, primeiro como pixador e grafiteiro, depois como pintor profissional e, posteriormente, como artista visual. O estudo de pintores e a aproximação com ateliês acrescentam novas referências à sua produção, sem substituir a linguagem que a originou.

Em 2018, realizei o minidocumentário Uma vez no Point, acompanhando Link no tradicional encontro de pixadores que acontece às quintas-feiras na rua da Galeria Olido, no centro de São Paulo. O filme nasceu do interesse em registrar aquele universo da pixação e da maloqueiragem produzido por jovens, em sua maioria negros e periféricos. De certa maneira, eu dava continuidade ao caminho iniciado no filme Lança (2018), dedicado ao movimento de poesia de jovens de Cidade Tiradentes, na zona leste paulistana. Naquele momento, Link ainda não ocupava o circuito das galerias, mas já se destacava como uma referência na cultura da pixação, reconhecido pela assinatura que atravessava os muros do bairro onde crescemos e de diferentes regiões da cidade.

Ao acompanhar aquele encontro, o filme revelou um aspecto que permanece central em sua produção: o gesto da escrita. Mais do que registrar a ação da pixação, a câmera se detém sobre as mãos que escrevem, sobre as assinaturas trocadas entre os pixadores em folhas de caderno, jornais, revistas e panfletos recolhidos no próprio espaço urbano. Jovens homens e mulheres compartilham seus traços enquanto a presença constante da violência policial atravessa aquele cotidiano. Sem entrevistas ou explicações, o filme observa atentamente a construção dessas grafias e reconhece nelas uma prática artística produzida antes de alcançar os muros da cidade. Esse gesto ajuda a compreender a obra de Link Museu, cuja pintura continua organizada pela força da escrita, pela materialidade da tinta e pela construção da marca como linguagem.

Essa continuidade aparece de forma consistente em sua produção. Os códigos da pichação permanecem presentes nas telas, assim como o interesse pelas superfícies, pela materialidade da tinta e pela paisagem urbana. Em trabalhos mais recentes, esse repertório passa a dialogar também com a observação da natureza e das transformações da periferia paulistana. Morros, terrenos, hortas, conjuntos habitacionais e áreas verdes aparecem como registros de um território em constante mudança, resultado de uma prática de pintura realizada diretamente nesses lugares.

Outro aspecto que atravessa sua produção é a construção de espaços coletivos. Ao longo dos anos, Link Museu participou da organização de saraus, encontros de grafite, ações comunitárias e da criação do Ateliê da Rapa, na Vila Cosmopolita. O ateliê funciona como espaço de trabalho, formação e convivência, aberto à circulação de moradores, artistas e jovens interessados em pintura, fortalecendo redes de compartilhamento de técnicas, materiais e experiências.

Sua presença em exposições como SOMA (Galeria Milan, 2021), Um lugar, lugar nenhum (Galeria Marília Razuk, 2021), Arte é bom (MIS-SP, 2022), AR LIVRE: paisagem contemporânea em Cidade Tiradentes (Centro Maria Antônia/USP, 2024), São Paulo é um gibi (Ateliê 397, 2025) e Do que a terra dá (Galeria Izabel Pinheiro, 2025) evidencia uma produção que circula entre diferentes contextos sem abandonar sua origem. Em vez de tratar o pixo como uma etapa superada, Link a reconhece como um saber que continua estruturando sua prática. Sua pintura desenvolve procedimentos, temas e soluções formais a partir desse repertório, afirmando a cultura urbana periférica como um campo consistente de produção artística contemporânea.

Jul 13
at
12:00 PM
Relevant people

Log in or sign up

Join the most interesting and insightful discussions.