Sou monarquista. E justamente por isso não faço a genuflexão sentimental que tantos fazem diante de Dom Pedro II. Ele foi um homem admirável — culto, paciente, íntegro, dotado de uma decência que falta a 99% da nossa vida pública. Mas, no instante decisivo, não exerceu as responsabilidades do trono.
1. Os meios existiam — e eram imediatos
Dom Pedro II tinha condições materiais e institucionais para desmontar o golpe republicano sem um único tiro — ou mesmo com vários, se necessidade houvesse.
a) Tamandaré ofereceu-se O velho almirante, ainda respeitado por toda a Marinha, colocou-se espontaneamente à disposição para agir contra o movimento golpista — e aguardou ordens que nunca vieram.
b) Dois batalhões bastariam A guarnição do Rio de Janeiro contava com unidades fiéis ao governo e legalistas por tradição. Bastavam dois batalhões, convocados à ordem do Imperador, para dissolver o motim de Deodoro — que, aliás, mal tinha tropas suficientes para cercar o Ministério da Guerra.
c) O gabinete de Ouro Preto esperava respaldo O Ministério estava pronto para resistir. Porém, sem a palavra do soberano, não tinha legitimidade para convocar forças, requisitar navios ou ordenar mobilização.
d) A própria capital aguardava um gesto Não houve levante popular. Não houve multidões nas ruas. O Rio dormiu monárquico e acordou republicano. A população estava na posição clássica da maioria silenciosa: esperando liderança.
E liderança não veio.
2. O problema não foi maldade — foi omissão
Dom Pedro II estava cansado, desencantado, adoentado. Era humano — e profundamente humano.
Mas não basta ser bom para governar um país. A bondade, isolada, não é virtude política; é muitas vezes uma tentação de abdicar.
Do Imperador espera-se grandeza quando o corpo falha. Do Imperador exige-se coragem quando a alma se cansa. Do Imperador cobra-se presença justamente quando ele mais deseja recolhimento.
Ele nunca disse, mas não há como negar: sabia perfeitamente que sua retirada significaria barafunda, ruptura, instabilidade.
As décadas de reinado lhe deram esse faro. E, ainda assim, retirou-se.
3. A Princesa Isabel também falhou — de outra forma
Ela era virtuosa, generosa, piedosa, íntegra — qualidades raríssimas na política moderna. Mas faltava-lhe o essencial para governar: formação de estadista.
E isso não se improvisa.
Ela não exigiu ser instruída. Não pediu assento regular nos Conselhos. Não participou do cotidiano do governo. Não foi treinada para lidar com generais, partidos, crises e pressões. Era mãe, esposa, devota — mas, naquele contexto, precisava ser chefe de Estado em preparação.
O Conde d’Eu, ao contrário, tinha apetite político, capacidade militar, visão prática do poder. Mas foi sistematicamente mantido à margem das decisões imperiais — por ciúmes da elite brasileira e pela própria falta de disposição de Pedro II em preparar um sucessor forte.
4. A República só triunfou porque ninguém a enfrentou
A Proclamação não teve povo, não teve plebiscito, não teve consulta nacional. Foi um golpe de quartéis, com meia dúzia de oficiais ressentidos e um marechal asmático liderando o movimento por engano.
Mas triunfou porque:
– o Imperador não resistiu; – a Princesa não estava pronta; – o gabinete ficou paralisado; – os legalistas esperaram ordens que nunca chegaram; – os monarquistas confiavam demais na “prudência” imperial; – e os republicanos agiram com velocidade e audácia.
O Império não foi derrubado: ele desmoronou na ausência de defesa.
5. A verdade incômoda
Dom Pedro II foi um grande homem. Talvez o maior que já sentou-se num trono nas Américas.
Mas, naquele instante fatal, foi pequeno demais para o tamanho do Brasil.
O país precisava de firmeza — e recebeu renúncia silenciosa. Precisava de resistência — e recebeu resignação. Precisava de autoridade — e recebeu humildade.
A humildade, naquele momento, não era virtude: era fraqueza.
6. O preço ainda estamos a pagar
A queda do Império não foi apenas uma mudança de regime. Foi a ruptura de uma cultura inteira de responsabilidade, continuidade e Estado moderador. A República nasceu com quartéis mandando — e nunca deixou de ser assim.
A lição é dura, mas precisa ser dita:
O Império morreu porque não lutou. E o Brasil nunca mais encontrou um centro moral capaz de sustentar sua própria ordem.