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Moramos pior do que os nossos avós?

À primeira vista, parece absurdo. Temos espaços menores, mas mais planejados, materiais modernos, lajes, vidros, “design minimalista”. Mas basta olhar com atenção para perceber um fato desconfortável:

moramos pior do que os nossos avós.

Não por pobreza. Mas por decadência técnica, estética e cultural.

O tijolo que virou bloco

As casas antigas eram construídas com tijolos maciços, pequenos, sem furos. Paredes espessas — duas fiadas cruzadas — criavam massa térmica real.

Resultado?

— interior mais fresco — silêncio — durabilidade

Hoje temos blocos cerâmicos ocos e paredes finas. É mais rápido. É mais barato. É mais quente. E mais frágil.

O telhado (cobertura) que virou laje

Nossos avós usavam telha de barro, com beiral generoso. Entre a telha e o forro, um colchão de ar refrigerava a casa.

Hoje?

Laje. Concreto exposto.

E depois, para compensar o forno, ar-condicionado.

Substituímos inteligência climática por eletricidade.

A varanda que sumiu

Varandas não eram luxo. Eram tecnologia climática popular:

— sombra — ventilação — proteção da chuva

E criavam beleza sem custo: a casa parecia pousar, leve, elevada, com beiral e sombra.

Hoje o quintal virou vaga de garagem. A fachada virou parede de vidro. E o sol bate direto na sala.

O pé-direito alto

As casas antigas tinham pé-direito alto. Não por ostentação — mas por função.

O calor sobe. O ar circula. Ambientes altos refrescam naturalmente.

O pé-direito alto era uma resposta ao clima, não um sinal de riqueza. Hoje, com pé-direito baixo, o calor fica onde vivemos — e compensamos o erro com ventiladores, ar-condicionado e conta de luz.

O aterro e os pilotis

O mais pobre sabia como construir:

— Um aterro de 20 a 30 centímetros — para evitar umidade — ventilar — refrescar

A elite sabia como construir:

— pilotis — pé-direito alto — ventilação cruzada

Hoje?

Nem aterro. Nem pilotis.

Construímos lajes coladas ao chão: quentes, úmidas, rachadas.

Casas para parecer — não para viver

Visitei condomínios no interior de São Paulo: casas iguais, cubos vitrificados. Portas enormes. Lajes estilizadas.

E a garagem? Com cobertura curta — porque era “estilo” — e um terço do carro ficava no sol ou na chuva.

É a forma vencendo a função. É o símbolo vencendo o conforto.

E as pessoas mudaram com as casas

No bairro antigo, o vizinho varria a calçada de camisa velha e cuidava do jardim antes do banho.

Lavávamos o carro sem camisa.

Fazíamos churrascos vestidos como mendigos.

Pintávamos os muros, raspávamos a ferrugem do portão. E aplicávamos o zarcão. Na semana seguinte haveria mais trabalho: a tinta.

Não havia vergonha no trabalho. Nem culto à aparência.

Hoje há gente arrumada demais para tocar na própria terra. Casas impecáveis — vidas artificiais.

Nos tais condomínios, arrepios. Nunca vi ninguém sequer regando o jardim. Homens e mulheres arrumados como que para sair ao shopping.

Trocamos:

— sombra por vidro — varandas por laje — beiral por estética — função por aparência

E depois ligamos o ar-condicionado para corrigir o erro.

Conclusão

Nossos avós construíam casas que refrescavam. Que duravam. Que eram bonitas porque eram funcionais.

Nós construímos casas que parecem modernas e funcionam mal.

Somos talvez a primeira geração a morar pior do que os avós acreditando que moramos melhor.

Não é saudade. É diagnóstico.

E, se quisermos recuperar o essencial, precisamos reaprender o que esquecemos:

sombra, ventilação, proporção, tradição, função.

Porque progresso não é trocar conforto por estilo. Nem perder inteligência em nome do “moderno”.

A casa — o nosso abrigo — não deveria ser o símbolo da decadência, mas o começo da reconstrução.

Dec 21
at
8:08 PM

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