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Já vou eu usar Chesterton mais uma vez para escrever aqui.

Na minha espécie de conselho pessoal dos grandes autores, ele ocupa uma cadeira especial. Então me permitam citá-lo de novo.

Essa semana, vendo toda a discussão sobre famílias homeschoolers sendo perseguidas judicialmente no Brasil, voltei a um trecho de A Verdade Sobre a Educação que parece ter sido escrito ontem.

Chesterton diz:

“Educação é uma palavra como ‘transmissão’ ou ‘herança’. Não é um objeto, mas um método. Deve significar a transmissão de certos fatos, pontos de vista ou qualidades a cada criança que nasce.”

E depois continua:

“Podem ser os fatos mais triviais, os pontos de vista mais ilógicos ou as qualidades mais repulsivas, mas, se passados de geração em geração, são educação.”

E eu acho curioso como quase todo mundo entende isso intuitivamente — até o momento em que pais resolvem aplicar essa lógica aos próprios filhos.

Porque ninguém realmente acredita em neutralidade cultural. Todo mundo sabe que filmes formam. Linguagem forma. Redes sociais formam. Professores formam. Amigos formam. Tendências formam. O próprio ambiente molda uma criança silenciosamente o tempo inteiro.

Mas, de alguma forma, quando pais decidem assumir conscientemente a formação intelectual e moral dos filhos, isso passa a soar perigoso.

E talvez seja aí que o debate sobre homeschooling fique tão desconfortável.

Porque, no fundo, a questão nunca parece ser apenas se a criança está aprendendo matemática, português ou história. O problema começa quando determinadas maneiras de enxergar o mundo deixam de ter permissão para formar crianças.

Essa talvez seja a parte que quase ninguém admite claramente.

Existe uma formação considerada aceitável porque coincide com o espírito do tempo. E existe outra imediatamente tratada como suspeita, retrógrada ou potencialmente nociva justamente porque se recusa a se curvar completamente a ele.

Chesterton percebe isso de maneira quase irritante de tão atual quando escreve:

“É estranho que as pessoas falem em separar o dogma da educação. O dogma é, na verdade, a única coisa que não pode ser separada da educação. Ele é educação.”

E talvez seja exatamente isso que tantas famílias começaram a perceber nos últimos anos.

O problema da educação moderna nunca foi apenas conteúdo. É a insistência quase religiosa de que determinadas visões de mundo podem formar crianças livremente enquanto outras precisam constantemente se justificar diante do Estado, da cultura ou das instituições.

No fim, ninguém está discutindo se crianças serão formadas por uma visão de mundo.

A discussão é quais visões de mundo têm permissão para educá-las.

May 23
at
2:43 PM
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