O ANDES é o sindicato nacional dos docentes do ensino superior. É quem me representa. Mas, há muito tempo, foi capturado por um grupo com retórica de extrema-esquerda e prática assentada no corporativismo mais chão. Defende, com justeza, a valorização salarial dos professores, mas também a degradação de todos os critérios de aferição de qualidade do desempenho profissional.
Em grande medida por causa da pressão do ANDES, nossa carreira tem sido cada vez menos capaz de prover incentivos para os professores dedicados. E, no círculo vicioso comum nesses casos, as práticas da direção afastam os docentes do sindicato e este afastamento, que reduz a participação nos processos eleitorais, permite a perpetuação do grupo dirigente.
Nos últimos tempos, o ANDES embarcou também no discurso fácil do identitarismo. Tornou-se o caso espantoso de um sindicato que se ocupa de perseguir seus próprios filiados. São vários casos, como a nota de repúdio ao prof. Rodrigo Perez, da UFBA, sugerindo mesmo a sua demissão, por ter se manifestado contra as cotas trans.
Agora, a 1ª secretária do ANDES, a sra. Caroline de Araújo Lima, abriu um inquérito policial contra pessoas que fizeram comentários a uma postagem do sindicato nas redes sociais. Em breve devem vir as intimações para os nove acusados.
A postagem era sobre mulheres cientistas perseguidas por sua atuação. Os comentários indigitados questionavam a inclusão de uma trans (aliás, a única pessoa já falecida da lista) e a ausência de nomes como os da profª Mara Telles e da profª Jan Alyne, notoriamente alvos de perseguições orquestradas em seus locais de trabalho, mas que, não comungando da cartilha da diretoria, foram deixadas de lado.
A própria Jan Alyne é um dos alvos da acusação criminal da secretária do ANDES. O comentário dela dizia simplesmente: “ninguém pode ser chamado de transfóbico por fazer menção à sua realidade sexuada”.
Mas o ponto é exatamente este. Falar em “realidade sexuada” é proibido. Passa-se da transfobia como discriminação e violência contra pessoas trans, que efetivamente devem ser reprimidas, à tentativa de criminalização do debate sobre a realidade biológica do dimorfismo sexual.
A ideia de que não existe fundamento material para o sexo biológico é sustentada por malabarismos filosofantes e ficção jurídica. Exatamente por carecer de outra sustentação, prefere se impor na base da intimidação.
É uma abordagem stalinista dos debates científicos. E os trotskistas da direção do ANDES se sentem bem à vontade com ela.