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Mortu Nega (1988) foi o primeiro filme ficcional da história da Guiné-Bissau. Dirigido por Flora Gomes, acompanhamos uma mulher que tenta encontrar seu marido em meio à guerra da independência do país. Com apenas 1h32 minutos, o filme perpassa um longo período de tempo, que denota o acumulo de desgaste sofrido pelas personagens.

Em uma cena do primeiro bloco, onde as personagens tem de se esconder e se esgueirar pela mata nativa, uma bomba levanta uma nuvem de poeira. No próximo plano, Gomes nos mostra algo que não vemos, transformando seu peso narrativo em peso imagético sem a necessidade da grafia. Ou seja, faz cinema.

No plano em questão, alguém foi atingido pela bomba e não sobreviveu, mas Gomes não mostra em nenhum momento o cadáver ou os traços de destruição. Começamos nas mãos de uma das personagens, que a leva a cabeça em uma luta, que tem de ser rápida, contra o luto. A câmera sobe e logo se aloca de modo a criar uma espécie de split-diopter com o rosto da moça e o restante do grupo, com o foco mudando dela para o soldado à direita no quadro. O grupo então sai pelo quadro por essa mesma direita, e a jovem tem de equilibrar sua carga na cabeça, deixando o morto para trás.

O que Gomes cria com o movimento da câmera em relação ao movimento dos atores na cena é um deslocamento de diferentes simbolismos: por um lado, a cena é uma maneira mais simples de mostrar a morte sem a necessidade de artifícios cenográficos, por outro, o peso da morte é sentido nos que ficam e em sua constante provação. Quantos não ficaram pelo caminho, mas todos ainda doem.

O plano se torna ainda mais potente quando lembramos de um outro, este de um filme que também trabalha com a provação de seus protagonistas ambulantes.

Jun 17
at
12:02 PM
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