Excelente escrita, riquíssimo apanhado de textos. Fiquei mui interessado no Savater e nos ensaios compilados por ele.
Se a escrita é, entre outras muitas coisas, um privilegiado sistema de pensamento, o ensaio é o livre exercício desse sistema, é a articulação despojada de quaisquer academicismos (que, numa linguagem figurada, eu costumo dizer que são quase patológicos, censores, inibidores do pensamento). Muitas vezes a leitura nos sugere pontos a serem costurados e não o fazemos, por nos deixarmos inibir por essa coisa acadêmica do rigor etc. (Eu sou um pouco assim, mas tento compensar as vezes que não escrevo com outras formas de expressão, ou com a colheita de expressões novas.)
Por esse motivo o espírito ensaístico é uma coisa que me agrada já de algum tempo, desde quando tive a oportunidade de ler Montaigne pela primeira vez. É um livro essencial na minha humilde estante (que é, na verdade, um colchão atrás de um sofá, rs).
Além das referências aqui citadas, quero deixar uma contribuição que dialoga muito com o que penso dos ensaios e que dialoga também com uma troca — chamemos assim — que tive com Raí entre ontem e hoje, a respeito, entre outros, do James Baldwin.
Mimesis do Erich Auerbach, clássico já mui conhecido dos estudos literários, trata de textos e autores essenciais e fundantes no ocidente: Cervantes, Shakespeare, Homero, Schiller, V. Woolf etc. O 12° capítulo do livro, “L’Humaine Condition”, trata de Michel de Montaigne e, especificamente, de um ensaio em que Montaigne trata de si próprio: Capítulo 2 do livro III dos Ensaios. A primeira frase: “Les autres forment l’homme”, os outros formam o homem.
O momento histórico em que Montaigne escreve e “funda” os ensaios é o da modernidade: 1580, século das expansões marítimas, da Europa indo saquear e povoar o continente a que chamou América etc. etc. A noção “Eu” e “Outro”, tal como hoje conhecemos, passa a ser delineada mais ou menos a partir dessa época. Significativo, nesse sentido, é também o clássico ensaio dele “Dos Canibais”, em que escreve sobre alguns indígenas Tupinambás do Brasil.
O motivo de eu achar os ensaios de James Baldwin (que ficou faltando à lista de Savater) profundamente significativos para o século XX é justamente porque eles operam, de algum modo, uma inversão (?) dessa ordem. Operam talvez uma das mais significativas, senão a mais significativa (é difícil hierarquizar, beira à arrogância, mas essa ordem determina muitas das coisas que temos hoje) mudança nessa ordem de mundo que vinha germinando desde os meados de 1500. Quem era o homem descrito pelo humanismo europeu da era moderna? Quem escrevia os ensaios?
“Nem uma única vez os Civilizados foram capazes de honrar, reconhecer ou descrever o Selvagem […] O pavor reconhecido que mencionei acima é gerado pelo medo de que o Selvagem possa, agora, descrever os Civilizados”. Isso é o Baldwin em 1984 num prefácio às Notas de um Filho Nativo. Agora é o outro quem fala de si.
Enfim, só um esboço. É mais profundo que tudo isso e demanda uma articulação muito melhor do que permitem as notas do Substack.