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Penúltimo dia do ano: duas leituras sobre o Natal, o Brasil e a responsabilidade de pensar

Penúltimo dia do ano. Na sociedade da hiper-informação, administramos mal o tempo. O resultado é que temos lido cada vez menos e escrito também cada vez menos. A cada rolagem de tela, a atenção vira migalha; a opinião, impulso; a conversa pública, uma mistura de pressa com cansaço. O paradoxo é quase cruel: nunca circulou tanta informação e, ainda assim, raramente paramos para organizar sentido.

Talvez por isso eu insista, deliberadamente, na contracorrente. Mantenho uma coluna semanal na Itatiaia, não para “produzir conteúdo”, mas como um pequeno espaço de respiração intelectual num ambiente que tende a punir a pausa e recompensar o ruído. É teimoso: reservar um lugar para a linguagem quando quase tudo quer nos empurrar para o reflexo.

Escrevo para refletir sobre o mundo para além do imediato, do algoritmo e do humor do dia. E compartilhar meu olhar, modesto, mineiro, tímido.

Escrevo para sustentar ideias simples, mas cada vez mais estranhas no mundo, tentar exercitar a sensatez.

Pensar é um ato de responsabilidade pública, penso eu. No fim do ano, quando o calendário dá essa sensação de balanço e de virada, essa responsabilidade aparece com mais nitidez. O que fizemos com o tempo? O que fizemos com os outros? O que fizemos com nós mesmos?

Nesse espírito publiquei meus dois últimos textos na Itatiaia. Compartilho aqui porque eles se conversam e, de certo modo, se completam. A temática é a mesma: o que significa falar em “espírito natalino” num país como o Brasil?

No primeiro artigo, parto de um desconforto que deveria ser central no Brasil contemporâneo. Somos um país que se afirma cristão, que se emociona com presépios e canções, que faz do Natal uma espécie de rito civil. Mas toleramos, no cotidiano, a distância brutal entre quem pode tudo e quem mal pode o básico. É uma contradição que não cabe numa leitura honesta do cristianismo, nem numa democracia que se pretenda minimamente decente. A desigualdade, quando vira paisagem, deixa de ser apenas um dado econômico: ela se transforma em anestesia moral.

No segundo texto, volto ao Natal por outro ângulo: como possibilidade de recomeço, como “fresca manhã” (inspirado num belíssimo poema de Adélia Prado) que interrompe a aridez, como lembrança de que a vida só encontra sentido quando desloca o eu na direção do outro. A mensagem natalina, se tem alguma força real, não é o enfeite da sala; é a reorganização de nossas prioridades, olhares e compromissos.

Um texto aponta a ferida e o outro insiste no caminho. Um cobra lucidez. O outro pede coragem. ambos, no fundo, recusam a versão mais confortável do Natal: transformar uma data em puríssimo ornamento e consumo, para que tudo permaneça exatamente como está no dia seguinte, no ano seguinte, nas décadas seguintes, a vida inteira.

Quase feliz 2026!

A seguir os links para os artigos publicados:

  1. “Desigualdade estrutural não combina com o espírito cristão do Brasil”

  1. “Natal traz a fresca manhã”

Dec 30
at
10:40 AM
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