E resido aqui
Feito um espantalho
Pobre boneco empalado
Sem corvos ou animal avoado
Com meu traje todo surrado
E quem me sustenta,
É entortado
Criatura nenhuma afugenta
Dia e noite, um amaldiçoado
E o chão que reflete
E te esquenta?
Ressecado!
Lágrimas de palha
Eu espalho
Inútil esforço,
Paspalho
Do alto de onde és ostentado
Gólgota de um só crucificado
Nada nasce, morre e ou é ressuscitado
O chão que tanto te aguenta
Não é terra pra por teu arado
Nem roça pra abrir teu terçado
É brita, cimento e agregado
E feixe de ferro deitado
De tanto que olhaste pra cima
Do madeirame onde foste pregado
Nunca percebeste que encima
Uma plantação de concreto armado
Sem falha ou espaço trincado
Nem grão de mostarda é plantado
Não há bandido bom nem malvado
E ninguém estará ao seu lado
Morreste e foste abandonado
Paradoxo de Inferno elevado
Prometeu de castigo trocado
Nada teu é devorado
Permanece teu corpo estufado
Como estandarte
De um estafermo passado