Hoje escrevo em tom de desabafo, e de alguma perplexidade. Há cinco anos venho, diariamente, compartilhando nas redes sociais informações relevantes sobre Machado de Assis, muitas delas inéditas. Nunca ganhei um centavo por isso. Faço porque considero importante. Ou, ao menos, considerava sem hesitação. Há dois anos, assisti a uma comoção nacional provocada pelo comentário de uma senhora americana que, ao que tudo indica, jamais havia lido Machado. Sua surpresa era, na verdade, a surpresa dos desinformados. Comentei em meus perfis que o fascínio estrangeiro por Machado está longe de ser novidade, e o comentário acabou repercutido por uma jornalista do Estadão. Desde a década de 1920, Machado é celebrado nos Estados Unidos, especialmente por escritores negros. Isso não é descoberta recente. É história conhecida, ou deveria ser. Agora, após publicar Machado: O Filho do Inverno, a primeira e mais completa biografia de Machado de Assis, evidenciando como sua experiência como homem negro foi decisiva na formação de sua obra, deparo-me com um silêncio quase absoluto. Nenhuma resenha relevante. Nenhum debate. Nenhuma atenção proporcional ao que já se viu mobilizar por muito menos. As vendas, para ser direto, são desanimadoras. E isso surpreende ainda mais quando se observa que quem lê elogia o livro com entusiasmo raro. Não é falsa modéstia reconhecer: houve rigor, trabalho e intenção clara de dialogar com o público amplo, não apenas com especialistas. Escrevi para leitores reais, para aproximar Machado do Brasil contemporâneo, porque ele ainda tem muito a dizer. Tenho cerca de 30 mil seguidores aqui. Um número expressivo, em tese. Na prática, irrelevante. Pelos dados, e como diria Machado, os números não mentem, pouquíssimos compraram o livro. Da mesma forma, quase ninguém acompanha a newsletter em cssoares.com.br. O que isso revela é simples: há consumo, mas não há compromisso. Há interesse superficial, mas não há engajamento real. Autores brasileiros não precisam apenas de visibilidade. Precisam de leitores. Machado, o filho do inverno, volume 1 da mais recente e abrangente biografia de Machado de Assis, está disponível em todas as livrarias. O segundo volume será entregue ainda este ano. A publicação, naturalmente, dependerá da editora. Convém dizer sem rodeios: o Brasil, de modo geral, ainda demonstra pouco interesse em conhecer profundamente a própria história. Uma equipe continuará publicando conteúdos por aqui, por algum tempo. Veremos se algo muda, se ainda há espaço para que as redes sejam mais do que vitrines passageiras de atenção dispersa. Não há ressentimento. Mas há lucidez. E, sobretudo, há limites para o uso do tempo. Talvez seja mais sensato, e certamente mais produtivo, empregar esse tempo nas redes sociais para fazer, com ainda mais intensidade, aquilo que já faço e que, ao que tudo indica, se tornou raro por aí: ler livros. Boa noite.