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Porque eu posso!

Quando resolvi ler o livro de Neige Sinno, premiado mundo afora e terceiro mais vendido na Flip 2025, não pisei em terreno desconhecido.

Desde a primeira página, não foi uma leitura fácil.

Quando Sinno escreve: “escrevo esse livro porque eu posso”, senti o peso de cada palavra.

A violência física que sofri não se compara à dela, mas acredito que a violência psicológica, e digo isso depois da leitura e de conversas com outras pessoas que também viveram experiências semelhantes, é muito próxima em intensidade.

Sinno foi abusada por anos pelo padrasto. Eu, por um primo muito querido do meu pai.

Durante muito tempo, minhas lembranças ficaram embaralhadas. Com terapia e esforço, fui recuperando cenas vividas aos sete anos.

Quem me fez mal não era um estranho, mas alguém visto como “bom”: trabalhador, com espírito aventureiro, até heroico para a família. Levava presentes, passava fins de semana em nossa casa.

Na adolescência, percebi com clareza o que acontecia e, depois de muita insistência, consegui me afastar.

Anos depois, no grupo de WhatsApp da família, chegou a notícia: o Dito cujo havia infartado, sozinho, na sala de casa. Sua vida foi vazia, solitária, mas ainda assim houve quem lamentasse a ausência de socorro em sua morte.

Eu, confesso, fiquei feliz. Aliviado pela certeza de que ninguém mais estaria vulnerável diante daquele monstro.

Não me surpreendi quando pessoas próximas me procuraram para relatar que também tinham passado pelo mesmo. Eu não era o único.

E então me pergunto: por que escrever sobre isso? E a resposta vem com a frase de Sinno:escrevo porque eu posso.

O livro de Sinno é essencial porque mostra a verdade, expõe a fragilidade do sistema, desnuda o abusador e mergulha na mente de quem carrega um trauma. Não há como mudar o passado ou recuperar a infância perdida. Mas é possível escrever a própria história e seguir adiante, todos os dias.

Diferente de Sinno, entendo que a terapia é indispensável.

Aos pais, deixo um pedido: conversem com seus filhos. Digam que entre vocês não deve haver segredos. Ensinem que ninguém pode tocar em seus corpos. Criem esse pacto de confiança. Estejam presentes. Meus pais talvez nunca tenham percebido. Não esperavam a maldade, talvez porque sempre viram o mundo pelo prisma do bem.

Mas a vida, às vezes, é torta. E ainda assim, segue.

Aos amigos que lerem este texto: eu estou bem. Só senti que era hora de falar.

Esse é o poder da literatura: ela trabalha por dentro, remexe, exige. E eu amo ler.

Leiam Triste Tigre.

Sep 16
at
1:21 AM
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