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Conselhos de meu amigo e escritor Claudio Comendini para quem pretende se aventurar no mundo das letras ou para quem já escreve: não escreva se receia ferir sensibilidades e recalques alheios. Enfim, não entre no jogo das patrulhas de pensamento de plantão.

Segue a nota de Claudio:

Eu sempre evito ler entrevistas de outros escritores. Em vídeo até que é tranquilo, mas quando passa para a coisa escrita, a chance de ocorrer algum tipo de edição, ou de o escritor se empolgar muito com o carretel do papagaio, é quase o prenúncio de um desastre.

Acontece que eu li um jornal literário que acompanho, e meus olhos deram em cima de uma entrevista conduzida por um amigo meu. Bom, pelo menos espero que ele continue assim. Até porque a culpa não foi dele — nada de errado com a entrevista. O problema foi o pedantismo do entrevistado, somado a um espírito paumolescente que não combina em nada com o que se espera de um escritor. Pelo menos, não de um escritor adulto, diga-se.

Em dado momento, surgiu a pergunta: “Quais cuidados você tomou para criar uma voz feminina?” — A resposta, no entanto, abduziu completamente meu tesão em ler o resto da entrevista e, principalmente, de ter contato com a obra.

Resposta: “Quando busquei referências para o livro, priorizei ler vozes femininas da literatura contemporânea. Se lia vinte livros por ano, ao menos dez eram escritos por mulheres. Não foi uma decisão consciente, mas algo que sempre fiz de maneira natural e também por escolha política. Minha única preocupação objetiva era que o livro passasse no Teste de Bechdel, algo relativamente simples de cumprir e que, ainda assim, muitas obras centrais da ficção não cumprem. Duas mulheres com nome, conversando entre si, sem que o assunto seja um homem. Fora isso, procurei respeitar profundamente todas as personagens, fossem homens ou mulheres.”

Mas isso é, senhoras e senhores, de uma franguice de dimensões descomunais. Não sei. Devo ter aprendido tudo errado. Apenas acredito (ainda) que o fazer literário não combina com poda criativa. Autopoda, então, nem se fala. É como imaginar o Edward Scissorhands fazendo um Chanel em si mesmo.

“Teste de Bechdel”? Do que esse mancebo tem medo? O jovem usa uma teoria indie para embasar seu trabalho. “(...) que, ainda assim, muitas obras centrais da ficção não cumprem”. É... arrisco dizer que esse é o motivo que as torna obras centrais da ficção.

Querido vivente, se for para escrever amarrado, temendo ferir as sensibilidades e os recalques alheios, não escreva. Faça um curso de enfermagem, procure alimentar um sagui num pé de carambola, ou distribua free hugs na porta de uma universidade federal. Tento imaginar o Thomas Pynchon se prendendo ao Teste de Bechdel, e não consigo. “Escolha política” deve ser a nova justificativa para emasculação criativa. Sério: é de brochar dildo de titânio.

É com alegria que digo isso: Meu jovem, por coisas assim, nunca serás Houellebecq.

Mar 18
at
11:00 AM
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