RESENHA DE BRENO FERNANDES
O que sobrou do mundo (crônicas)
Marcus Borgón (Brasil), 2022
Villa Olívia, 2022, 140 p.
2023 tem sido um ano cansativo e meio melancólico para mim. E ainda estou tentando entender o porquê.
Em parte, acho que vivo uma ressaca prolongada do último governo. É como se, depois que aquele lá foi eleito, o corpo tivesse entrado em modo alerta e ficado assim até 1º de janeiro de 2023. E agora, quando quase toda a tensão muscular e quase todo o estresse mental dos últimos quatro anos desapareceram, restou o sintoma desse longo período de alerta. Ficou o desgaste.
Mas o ex-presidente era só parte do problema, a parte mais urgente e ameaçadora no curto prazo. Sobrou a percepção de que o mundo caminha para um rearranjo social drástico, no qual a noção de Estado de bem-estar social vai ficando cada vez mais distante do que foi no passado recente e cada vez mais próxima da ideia de Estado de assistência emergencial. Um mundo no qual, embora ainda faça sentido falar em classes sociais, essas categorias parecem estar se transformando noutra coisa, talvez em algo próximo da noção clássica de casta. E, se tudo isso é sentido até mesmo nos países do Norte, montados em privilégios e vantagens acumulados pela exploração de outros povos, no Brasil as coisas se dão de maneira, digamos, mais acentuada ou calamitosa. Até porque, historicamente, o Brasil sempre esteve mais próximo de uma sociedade de castas do que de classes, de um Estado de desamparo geral do que de um Estado de bem-estar social.
Essa incapacidade momentânea de pensar num futuro benfazejo, de ser esperançoso e de sonhar sonhos para quando as coisas estiverem melhores, me tem levado com especial atenção para autores adeptos da poética do fracasso. Isto é, escritores que contam histórias nas quais o fracasso é menos um obstáculo e mais uma condição incontornável do viver. Fracassar seria, assim como sentir fome ou como respirar, uma atividade rotineira.
Os autores adeptos da poética do fracasso compartilham essa premissa e enfatizam fracasso em seus trabalhos, mas no fim das contas cada um tem um jeito meio singular de tratar o assunto.
Por exemplo: Roberto Bolaño, o escritor chileno, como disse um crítico literário, "adota a crise mesclando um espírito rebelde e lutador a um humor derrotado e por vezes grotesco". Já o escritor baiano Marcus Borgón, em seu livro mais recente, as crônicas de "0 que sobrou do mundo", se volta para a resignação, para o fazer as pazes com o fracasso, quase que como se essa atitude fosse pré-condição para alcançar o zen —não o zen transcendente da espiritualidade, mas o zen possível. O zen da vida cotidiana. Em cerca de trinta textos curtos, com cenas, comentários ou histórias que parecem compor uma única vida, da infância à meia-idade, Marcus nos apresenta a este personagem que é um garoto nascido no seio de uma família de classe média baixa, com "uma dignidade suburbana da qual ninguém duvida, embora não deseje para si"; um garoto quieto, que apesar de falar pouco e de nunca se destacar "em nenhum dos âmbitos da meninice (futebol, traquinagens, valentias)", ia bem na escola e demonstrava uma inteligência dita precoce, mas que, mais tarde, talvez já na vida adulta, ele entenderia ser apenas uma antecipação da "charlatanice dos adultos".
O garoto promissor então começa a crescer e se torna um adolescente e um jovem adulto apto à "aventura de desperdiçar tardes inteiras, por anos a fio, entrevado no sofá", entregue ao desfrute do rock e dos próprios pensamentos. Porém, aos olhos da família e dos vizinhos, ele se transforma num vagabundo capaz de dar um nó na cabeça da mãe: como quem estuda mais não se dá bem na vida?
O próprio protagonista dessa história fragmentada parece seguir ouvindo os ecos dessa pergunta pelos anos seguintes. Por isso, a certa altura, ele põe a culpa de suas insatisfações na própria mãe. No fato de ela ter lhe dito que era um menino de sorte. "Levei muito tempo botando fé nesse vaticínio dos infernos, e nunca me esforcei para porra nenhuma. Acreditava que essa suposta predestinação cuidaria de pavimentar a minha estrada de sucesso Hoje sei que essa convicção me foi um verdadeiro carimbo aziago na testa. Algo que me imobilizou".
Mas essa não é uma crença que ele sustente por muito tempo. À medida que o tempo segue seu curso, e que protagonista dessas crônicas experimenta "a prescrição continuada, e cada vez maior de drogas; a prostituição de alguns valores em troca de sobrevivência; o sentimento de que os anos pretéritos continuarão mais felizes que os vindouros", ele parece aceitar que "a vida sem proezas e grandes feitos não é nenhuma tragédia". Tal vida pode até ser matéria-prima para algo de valioso, do contrário não haveria os próprios textos pelos quais ele se expressa. Textos que dão a impressão de que o prazer de narrar supera as angústias das histórias narradas, como sugere o encadeamento de metáforas a seguir, que repetem, como um mantra poético, a mesma ideia de fracasso: "Assim é a rotina de quem não tem nenhuma habilidade ou vocação especial. Uma vida pendurada ao pé do telefone que não toca. Senha que não chama, porta que não abre, ônibus que não passa. Tudo gira ao seu redor, mas alheio a você." Deve que o zen possível surja daí. Do ato de transformar esse alheamento em desfrute — nem que seja só desfrute estético. Como se fosse pouco.