É mais fácil gostar de quem não conhecemos bem.
Quando o outro ainda é distante, ele funciona quase como uma tela em branco. Somos livres para projetar nossos ideais, nossas faltas, aquilo que gostaríamos de encontrar. Nos encantamos pela versão fantasiada que criamos. É o campo da idealização, onde o outro ainda não teve a chance de nos contrariar, frustrar, cair de nossa ficção.
O encontro com o outro é sempre atravessado pela alteridade — ou seja, pelo fato de que o outro é irredutivelmente outro. Diferente de nós. E isso não é confortável. O outro não corresponde totalmente às nossas expectativas, não nos completa, não se encaixa perfeitamente no nosso desejo. Ele escapa.
Por isso, quanto mais a gente conhece alguém, mais essa diferença aparece. E aí começam os pequenos desencontros: o jeito que irrita, a opinião que diverge, o silêncio que não combina com o nosso. O outro deixa de ser essa figura ideal e passa a ser alguém real — e o real tem sempre um quê de incômodo.
É infinitamente mais fácil gostar de quem não conhecemos bem porque estamos no terreno mais seguro da fantasia, onde o outro pode ser moldado ao nosso desejo sem resistência. O desafio de toda relação — e talvez a parte mais interessante — é sustentar o afeto quando essa ilusão cai. Quando a gente começa a gostar não apesar das diferenças, mas junto com elas. Quando o outro deixa de ser um reflexo do que queremos e passa a ser, de fato, um outro.
E aí já não é mais tão fácil. Mas é bem mais verdadeiro.
Manoela Maia