Como o dinheiro do homem que financiou o Chega serve agora para controlar jornais históricos?
César do Paço, o polémico luso-americano radicado nos EUA, entrou diretamente no coração do xadrez mediático português ao tornar-se acionista de referência do Global Media Group, o conglomerado que detém títulos como o Diário de Notícias e o económico Dinheiro Vivo.
A chegada ao topo da imprensa nacional é o culminar de uma estratégia de conversão de fortuna em poder que começou bem longe de Lisboa.
A carrinha de caixa aberta estaciona frente ao departamento de polícia de Palm Coast, na Flórida. Dela saem cães de guarda de raça alemã e caixas de equipamento tático, tudo pago do próprio bolso por um emigrante português que poucos conhecem em Lisboa. Chama-se César do Paço, fez uma fortuna fulgurante no mercado americano dos suplementos alimentares com a Summit Nutritionals International e descobriu que a filantropia e o dinheiro abrem as portas mais exclusivas do Estado.
Em outubro de 2014, essa influência transforma-se em papel oficial. O Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa, liderado por Rui Machete (PSD), assina a sua nomeação como Cônsul Honorário de Portugal. Paço compra um edifício, hasteia a bandeira portuguesa pela primeira vez naquela região e assume todas as despesas da representação diplomática, cerca de meio milhão de dólares por ano.
Para o Estado português, o negócio parece perfeito: diplomacia de luxo a custo zero. Para o empresário, o título confere uma imunidade e um prestígio que o dinheiro não comprava sozinho. Nasce ali a persona do "Xerife de Palm Coast", um homem que cruza negócios, diplomacia e uma proximidade estreita com as forças de segurança americanas.
O manto diplomático cai abruptamente em maio de 2020, após "incompatibilidades insanáveis" com o embaixador de Portugal em Washington, Domingos Fezas Vital. Mas o verdadeiro xadrez político de César do Paço estava apenas a começar, e o tabuleiro, desta vez, era o parlamento português.
Janeiro de 2021. A SIC transmite a grande reportagem "A Grande Ilusão", assinada pelo jornalista Pedro Coelho. A investigação faz tremer as fundações do Chega, o partido de André Ventura que crescia a olhos vistos com um discurso focado no combate às elites financeiras e aos mecenas do regime.
A reportagem revela a grande contradição: o motor financeiro do partido "anti-sistema" estava fortemente ancorado na fortuna de César do Paço.
Como a lei portuguesa proíbe que empresas financiem partidos e impõe um teto máximo rigoroso aos donativos de pessoas singulares, o círculo do empresário montou uma operação de engenharia financeira. Através do fracionamento de capital, uma rede de empresários alinhados injetou nas contas do Chega o valor máximo permitido por lei por cada nome individual. O dinheiro entrava de forma legal, mas o fluxo era massivo e concertado.
O oxigénio financeiro permitiu ao Chega abrir sedes de norte a sul do país e profissionalizar a sua estrutura. Mas o investimento trazia condições. Em troca do financiamento, homens da estrita confiança de César do Paço ocuparam cargos de relevo nas direções regionais e nacionais do partido, transformando o empresário num poder sombra com capacidade de ditar rumos na extrema-direita portuguesa.
A investigação jornalística foi mais fundo e expôs a pegada ideológica que o empresário deixava do outro lado do Atlântico. A reportagem documentou as ligações de Paço a franjas radicais da direita norte-americana, a lóbis armamentistas e a figuras associadas à retórica do supremacismo branco. Nas redes sociais de assessores e elementos muito próximos da sua estrutura, multiplicavam-se mensagens de teor xenófobo, racista e de apologia da violência policial.
Agora, financia a Global Media. Mais um passo para a manipulação da percepção pública.