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Lembrando que: forma ≠ iconografia.

Tratar iconografia (que diz respeito à organização de um tipo de registro, e como tal se inscreve no domínio do prófilmico) como forma (que está na articulação fílmica do material prófilmico, isso se ainda é de cinema que se está falando) não ajuda nem um pouco o caso, a bem dizer impossível, dos apologistas do Tarantino.

Por mais que eles insistam, fala por si o espalhafato iconográfico desses filmes que ficaram sucessivamente mais flácidos, inchados e frouxos no nível da forma (a puerilidade de cada corte em Django, que salta aos olhos desde a sequência de créditos, ou as soluções de tratamento do espaço e da própria decupagem com a janela Ultra Panavision em Hateful Eight, que já comentei em outra ocasião aqui mesmo), e fala principalmente daquilo que no cinema de Tarantino se expressa como uma forma de espetáculo que não é, de forma alguma, e é isso o que os panegíricos não conseguem dar conta (e nunca darão, porque não têm como dar), um espetáculo da forma.

(Esse espetáculo, o da forma, essa exaltação do contorno que acrisola a figura, a ideia, o ícone sem transcendê-lo, e que é a verdadeira arte dos autores modernos, os grandes anacrônicos, os grandes desassombrados pela dimensão da história enquanto desejo de representação, aqueles para os quais a história é antes o palco do teatro da representação do desejo, esse espetáculo teve como seus principais vetores no cinema as obras de Josef von Sternberg, Sergei Paradjanov, Manoel de Oliveira, Werner Schroeter, Carmelo Bene, Hans-Jürgen Syberberg, Franco Piavoli, Alain Cuny, nunca, jamais Quentin Tarantino).

Se for para falar da forma desses filmes, e o quanto é na forma que são caducos, solenes, pesarosos (e isso antes de qualquer discussão sobre a maneira como Tarantino inscreve ou desloca essa iconografia de um pano de fundo que é sim histórico, claramente histórico, histórico e com a vontade e o desejo expressos de ser histórico e em momento algum mitológico, a não ser talvez em OUATIH), é preciso considerar antes como esses filmes estão construídos, como estão esquematizados enquanto narrativas e construções dessas narrativas. E aí a coisa complica de vez, porque o Tarantino nesses filmes chega a ser um retrocesso até em relação ao mais maniqueísta e apelativo filme de espetáculo hollywoodiano dos anos 20 e 30. Basta ver o quanto Basterds, Unchained, Eight dependem do velho teatro e dos velhos esquemas de identificação desse teatro, como os filmes estão integralmente construídos em cima da catarse, da própria ideia da catarse, da própria validação dessa ideia (a narrativa desses três filmes toda construída a partir de e para que se chegue nessa validação), e assim sendo só podem estar construídos com a velha chantagem da identificação e da, se não empatia, simpatia pela personagem mais injustiçada, e mais injustiçada de acordo com o que a torna claramente, poder-se-ia dizer didaticamente, um sujeito histórico (uma judia francesa na França sob a Ocupação/um judeu americano lutando com os G.I. na França ocupada; um escravo/um branco que se conscientizou; um ex-escravo/outro branco que se conscientizou).

Tudo isso não tem nada a ver com o teatro ou o cinema moderno; tem a ver principalmente com o filme de gênero mais formulaico dos anos 30 e 70, Death Wish e quetais. E mesmo no que toca essa década de fato inglória para o cinema americano, os filmes do Tarantino comem pó em relação ao que foi feito por Milius no filme sobre Dillinger e por Cohen no filme sobre Hoover, para pegar dois realizadores que de fato desarticulam a potência sedutora da iconografia de época pelas disjunções mais ou menos bruscas, mais ou menos reflexivas da forma.

Quanto ao contrato vacilante, mas não menos explícito por isso, desses filmes do Tarantino com a História, cabe apenas uma pergunta: se há o interesse pela forma épica, por que então a completa ausência de inspiração mitológico-epopeica?

Há coisas que podem ser explicadas pela falta de tato, um ponto de vista rasteiro, uma concepção da política que nada mais é que o pleonasmo de uma ideologia tacanha.

Não é esse o caso quando se trata da mais flagrante falta de imaginação, como é o caso com o Tarantino.

Acho que a questão a se colocar aqui é outra.

Adotando o vocabulário do Will, há feiúra, mais até do que incoerência, mais até do que inconsciência, e muito mais do que inconsistência na visão de mundo dos espectadores que se identificam como estando à esquerda, como sendo progressistas e que na virada dos 2000 para os 2010 adotaram as fa…

Dec 25
at
8:59 PM
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