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Viel, meu craque, já virou artilheiro também aí na Itália?

Esperei terminar o Colômbia X Uzbequistão (Uzbequistão na Copa, veja só!) e fechar essa primeira rodada para voltar a te escrever. Até aqui, muitas seleções organizadinhas e poucas brilhantes. Me surpreende a quantidade de jogos não exatamente bons, mas divertidos. Também vesti a camisa de Senegal, só que fica difícil para qualquer um quando os franceses resolvem jogar bola. Essa geração tinha tudo para enfileirar uns 4 mundiais seguidos. Um desagrado: a insistência da transmissão oficial em mostrar celebridades (ou quase isso) nos camarotes. E daí que fulano tal, astro sei lá de onde, está no estádio vendo tomando champagne? Gosto de ver torcedores, não espectadores.

Tivemos dois grandes nomes nessa primeira rodada. Lembra quando dissemos que o futebol resistirá às palhaçadas da Fifa, meu amigo? Pois está aí o nosso Vozinha, que você tão bem destacou. A paixão e a loucura resistirão enquanto um jogador de 40 anos, completamente desconhecido, guardando o gol de uma ilha com 500 mil habitantes, segurar um time que vale mais de 7 bilhões de reais  - surreal, o valor dos 26 jogadores espanhóis dá quase um terço do PIB de Cabo Verde. É uma dessas pequenas e brilhantes histórias que rolam em todas as Copas. Nunca sabemos de onde virá, mas a surpresa é sempre certa.

Em “Páginas sem Glória”, excelente novela boleira do excelente Sérgio Sant’Anna, o lendário Conde diz pensar na graça e na beleza do futebol após fracassar ao tentar fazer o lance mais belo possível. Essa atitude artística diante da bola anda mesmo raríssima. Talvez tenhamos que rever a ideia do Pasolini para procurarmos a poesia não no jogo em si, mas nos pequenos gestos e histórias. Veja, por exemplo, que figura interessante que é Lionel Scaloni, sujeito que parece plenamente consciente do privilégio que tem por forjar (com alma, sintonia e ordem) e viver a história. Acho tão bonita a maneira como ele se emociona nas grandes conquistas e também diante de belezas menores. A cena dele com o olho cheio de lágrimas ao substituir Messi num jogo de estreia contra a Argélia tem sim a sua carga poética.

E aí chegamos no segundo grande personagem dessa primeira rodada, desta vez uma obviedade. O que mais falar de Messi? Messi, Messi, Messi…! Conversava com um amigo enquanto ele brilhava. Esse camarada disse que Messi era tão grande quanto Jorge Luis Borges. Achei um disparate. Messi também sabe escrever frases. Por outro lado, não lembro de nenhuma biografia de Borges mencionar que o escritor sabia acertar um mísero passe. Não há comparação possível.

Nessas, caí na brincadeira de escalar uma seleção de escritores. O time ficou assim: Camus no gol, pois com goleiro não dá para arriscar; Borges, mesmo sem acertar passes, na lateral direita; Gabo desafiando o real na lateral esquerda; uma dupla de peso forma a zaga: Tolstói e Dostoiévski; Homero é a base do time com a cinco, Cervantes revoluciona o meio de campo com a oito e Dante merece a dez pela classe, graça e inventividade. Escalei com dois pontas: Machado vai garrinchar sobre os adversários com a 7, enquanto Shakespeare inventa duas tramas pelo outro lado com a 11. Camões, com a 9, é a referência no ataque. Técnico: Erich Auerbach. Assessor de imprensa: Heródoto. Kafka ficou de fora porque se enrolou com a burocracia.

Lembrei que fiz graça semelhante na Copa passada. Escalei uma seleção de autoras argentinas. Olha só como ficou o 4-3-1-2: Mariana Enriquez; Natalia Litvinova, Selva Almada, Hinde Pomeraniec e Laura Alcoba; Ariana Harwicz, Beatriz Sarlo e Sylvia Molloy; Samanta Schweblin; Gabriela Cabezón Cámara e Camila Sosa Villada. Quatro anos depois, sigo achando um timaço!

Gostei desse seu registro do garotinho com a camisa de Pelé. Vai ao encontro de uma coisa que eu tenho pensado desde que recebi uma de suas cartas, aquele negócio da tevê italiana represar a final de 2006, pois novamente estão fora da Copa. Claro que é bom ter um passado grandioso, mas um dos temores da minha vida é que, na falta de perspectivas e sonhos realizáveis, o olhar para trás se torne a única forma de suportar o presente.

Temos muito ainda por fazer. Aguardo seus olhares para a Copa e notícias do seu périplo pela bota. Adoro viajar, e também me sinto viajando quando acompanho a jornada de um amigo.

Grande abraço.

Rodrigo Casarin - São Paulo, 19 de junho de 2026, poucas horas antes de voltar a vestir a camisa do México (aliás, preciso mesmo comprar uma camisa do México).

Salve, Capitão, certinho?

Rapaz, o futebol é mesmo uma negócio apaixonante. Imagina que ontem eu, por questões afetivas com o país onde já morei (e talvez volte, quem sabe, a morar), comecei o jogo torcendo pela Espanha. Estava seguro de uma goleada (eu e o mundo todo). Na metade do primeiro tempo eu já estava torcendo para Cabo Verde. Vi…

Jun 18
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12:18 PM
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